03/01/12

Comunicado | Electricidade 2011: menor consumo, menos renováveis e mais emissões‏

 Quercus analisa dados da energia eléctrica de Portugal em 2011

Positivo: menor consumo
Negativo: menos renováveis, mais emissões

A Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza recorreu aos dados disponibilizados pelas Redes Energéticas Nacionais (REN) relativos à totalidade do ano de 2011 para analisar a evolução dos mesmos ao nível da produção e do consumo de electricidade.

Portugal está sujeito a uma enorme variabilidade climática com incidência quer no recurso à produção de electricidade a partir de fontes renováveis (em particular à hídrica), quer nas necessidades de aquecimento e arrefecimento, nos sectores doméstico e de serviços, que condicionam o consumo. Estes factos foram determinantes no ano de 2011, onde o peso das energias renováveis desceu 6,4% por contraste com 2010, atingindo 46,8%.

Portugal mais eficiente – consumo de electricidade diminui 3,2%

A relação entre o consumo de electricidade e o PIB denomina-se por intensidade energética (neste caso limitada à electricidade) e é um indicador de eficiência.

Entre 2008 e 2010, o PIB cresceu sempre de forma inferior ao consumo de electricidade. Ou seja, continuou-se a precisar de mais electricidade para produzir uma unidade de riqueza. Em 2010, o PIB cresceu 1,5%, enquanto o consumo de electricidade cresceu mais do dobro (3,3%). 2011 foi um ano diferente pois a intensidade energética diminuiu. Estima-se uma contracção do PIB de 1,6%, para uma quebra do consumo de electricidade mais acentuada de 3,2%. Esta redução é, no entanto, conseguida principalmente à custa do aumento do IVA da electricidade e também da tarifa, não sendo resultado de uma política de gestão da procura mais eficiente.

A Quercus considera que o Governo deverá dar muito maior ênfase às medidas na área da redução do consumo e de incentivo à eficiência energética (gestão da procura), medidas aliás com maior custo-eficácia e onde o Plano Nacional de Acção para a Eficiência Energética (PNAEE) poderá ser um elemento fundamental se os objectivos nele estipulados tiverem maior expressão prática.

Neste momento, Portugal precisa de rever as suas políticas energéticas, quer do lado da oferta, quer do lado da procura. Com a contracção económica esperada nos próximos anos, é necessário perceber em que energias renováveis faz sentido investir nos próximos anos e que potência instalada o país precisa.


Redução na energia eléctrica de origem renovável para 46,8% e forte aumento nas emissões de gases com efeito de estufa (2,5 milhões de toneladas), principalmente devido à queima de carvão

O valor real da percentagem de electricidade produzida a partir de fontes renováveis em 2011 foi de 46,8% (por comparação com 53,2% em 2010 – ano record deste século - 36,5% em 2009 e 27,8% em 2008).

A grande quebra de produção de energia por fonte renovável verificou-se na produção das grandes barragens, com uma quebra de 27,3%, entre 2010 e 2011. Em 2011, a grande hídrica produziu cerca de 10.807 GWh (gigawatt-hora), cerca de 21,4% do consumo de electricidade em Portugal nesse ano. A produção em regime especial de energia renovável (PRE Renovável) que conta, para além da eólica, com o uso de biomassa, com as pequenas hídricas e a energia fotovoltaica somou 12.835 GWh, que corresponde a 25,4% do consumo de electricidade em 2011. A energia eólica manteve a mesma produção em 2010 e 2011, contribuindo com 9.005 GWh na produção nacional de electricidade, cerca de 17,8% do consumo total de 2011.

Quanto a emissões de dióxido de carbono, responsáveis pelas alterações climáticas, e em pleno período de cumprimento do Protocolo de Quioto por Portugal, que se estende até 2012, a Quercus estima um aumento em perto de 2,5 milhões de toneladas de emissões. Tal significa cerca de 3,3% do nosso valor base de 1990 para efeitos do cumprimento de Quioto. Uma das constatações mais significativas é o aumento das emissões das centrais térmicas a carvão de Sines e Pego, responsáveis por um aumento de 2,3 milhões de toneladas de emissões (mais 39% em 2011 por comparação com 2010), devido à sua maior produção de electricidade, face ao peso menor que a grande hídrica teve em 2011.


Um Dezembro muito especial – quebra no consumo atingiu record de 10,3%, com descida também grande da produção de origem renovável

O aumento do preço da electricidade e, certamente, a adopção de comportamentos mais eficientes por parte dos portugueses conduziram à maior resposta em termos de contracção do consumo em Dezembro, mês em que o mesmo caiu 10,3% por comparação com Dezembro de 2010. Se ponderarmos as temperaturas verificadas e o número de dias úteis, o valor da descida foi de 7,7%, o que mesmo assim é muito elevado. Também em Dezembro de 2011 o índice de produtibilidade hídrica foi de apenas 0,56 por comparação com 1,45 com o período homólogo de 2010 (um valor de 1 corresponde a um mês médio), estando as albufeiras a 49% da sua capacidade, menos 14% que no ano passado. A falta de vento levou também a um abaixamento do índice de produtibilidade eólica de 1,13 para 0,78.


Lisboa, 3 de Janeiro de 2012

A Direcção Nacional da
Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza